
Nunca entendi esse teu egocentrismo, o facto de achares que realmente és digno de todo este desejo que existe à tua volta. Nunca entendi nada vindo de ti, o porquê de teres um cavalo, um cavalo branco, o porquê de seres um príncipe, que toda a gente sonha ser lindo e maravilhoso e sentimental e ridiculamente perfeito. Nunca entendi porque nunca te vi, e eu gosto de ver, não gosto de me ficar pela imaginação. Porque a imaginação é uma coisa muito ponderada, muito tem-de-ser-assim-para-ser-perfeito, e tem muitas lacunas porque isso raramente acontece. Não gosto de tem-de-ser, gosto de pode-ser. Nós nunca estabelecemos contacto visual, nunca me fizeste ficar estranhamente sem palavras e nunca me fizeste corar subitamente sem dar por isso. E sinceramente, acho que serias muito mais encantador se fosses um trovador ou um mero bobo da corte. A muitos dos príncipes que aí vagueiam falta o chá e ao menos os trovadores sabiam tocar música e os bobos têm lata e a desinibição que muitas vezes aprecio. Quanto a esse teu cavalo branco, podia ter uns longos bigodes e uma brilhante pelagem negra e tornar-se numa pantera, que seria muito mais convincente. A pantera tem garras que te podem rasgar em pedaços e tem uma atitude completamente exótica, faz o que quer, nunca sabes o que podes esperar dali. Esse teu cavalo tem cascos que são previsíveis e muito fáceis de domar e o mais exótico que pode fazer é relinchar de vez em quando. E todos sabemos qual dos dois nos dá vontade de.
Por isso, príncipe com um cavalo branco, desce à terra e deixa as pobres meninas decidirem se preferem um bobo ou um rei, um príncipe bastardo ou uma outra coisa qualquer. E até podem não ter sequer preferência. Não as obrigues a lutar ou esperar por ti, porque sabes bem que o teu lugar pode ser de qualquer um, desde que elas não estejam tão obcecadas a tentar preencher requisitos que tu predeterminaste. E aí perdem, perdem mesmo.
Iz
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